Lá vem ela


Olha só, lá vem ela

A morena da novela
Da roda de samba
Do comercial
Da favela
A morena que desfila
Passa e suaviza
Faz malandro ficar na fita
E ganha assobio na paulista
Assobio que a corrompe por dentro
Que mata seu ser nem um pouco sustento
Que a faz vestir saia longa
Blusa de frio no calor
Ou quem sabe sair de cobertor
Porque ela é a morena
A morena que é assediada na esquina com um ''fiu-fiu, lá vai a verão''
Isso mesmo, lá vai a verão com o coração de pedra
Com medo de andar por entre becos e vielas
Que teme a cada pé que coloca na rua
Que chora com a morte da irmã que morreu na semana passada devido a um mauricinho que se achava no direito de tê-la como tua
Lá vai ela, a morena, a verão, a musa do brasileirão
Que vira a cabeça dos homens que aplaudem e dizem ''essa bate um bolão''
Porque mulher virou objeto de hipersexualização
Afinal, o que vende mais? 
Claro que é a atriz seminua nas capas dos jornais
Depois eles nos vem com sejam ''belas, recatadas e do lar''
Bela, recatada e do lar é uma ova
Não venha meter teu machismo na minha prosa
Hipócrita 
Posta nas redes sociais que saia curta é coisa de mulher que não se dá ao respeito
Mas não perde tempo na hora de compartilhar com o amigo foto de peitos
Ridículo
Me quer sentada em casa, lavando do banheiro a sala de estar
E a noite na cama sendo sua dama, para depois dizer que ''mulher só serve pra dar''
Sirvo mesmo pra dar!
Pra dar orgulho pra minha mãe quando eu passar na universidade
Pra dar esperança para as outras mulheres da minha idade
Pra dar vida a todas as meninas que se veem desiludidas devido ao seu patriarcalismo
Então não me venha com seus ''morenas'', ''preta'', ''pretinha'', ''verão''
Porque eu sou e sempre serei muito areia para o seu caminhão.

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