Quase três da manhã


Leia ao som de 2:57 am
Era meia noite. Bateu na porta devagar e quando abri deu um sorriso torto como quem perguntasse ''posso entrar?''. Dei passagem e não perguntei o que a levara até ali, só deixei que adentrasse, mais uma vez. 

Logo assim que colocou o pé esquerdo adentro do meu projeto de apartamento, suspirou fundo. Olhou ao redor e jogou a bolsa num canto qualquer. Virou para trás e perguntou o que eu andava fazendo, respondi com ''ah, o mesmo de sempre''. Então você foi até a geladeira, pegou água e ficou sentada na mesinha.

E eu fiquei ali na sala, parado, sem saber o que fazer. Faziam meses que você não aparecia e do nada resolvera bater na minha porta. Perguntava-me se era miragem produzida pela saudade ou era realidade que em breve seria dilacerada.

Enquanto me decidia entre ir ou ficar, você voltou e finalmente disse o que viera fazer ali. Bateu saudade, foi só isso. Só isso, você resumiu. Então eu me aproximei e senti todo seu corpo se arrepiar. Ficou na ponta dos pés e segurou meu pescoço. Não podemos fazer isso. Mas nós queremos. Mas não podemos. Só por hoje.

Só por essa noite.

Quando vi, era quase três da manhã. Deitada nos meus abraços, enroscada num lençol fino, respirava pausadamente, enquanto teimava em não fechar os olhos. As luzes da cidade tentavam adentrar o recinto pela persiana. O batom roxo já não fazia mais parte dos seus lábios, assim como o delineado de gatinho que estava desgastado. De cima eu via um lápis e papel tatuado em sua pele.

É pra marcar do que sou feita, foi o que me disse quando perguntei o significado. Perguntei por onde andava e você logo levantou, balançou os cabelos, correu para o banheiro e de lá gritou ''vou ficar mais um pouco, mas não me faça perguntas, por favor''. Eu assenti. Eu sempre assentia. Era sempre assim.

Dei por mim e você estava na sacada, com aquela minha camiseta que tem versos de Vinicius estampada e um cigarro na mão, olhava para os carros que passavam lá em baixo e para o reflexo da lua no mar. Quando cheguei mais perto me contou sobre seus últimos escritos, sobre como achava o céu triste e bonito, sobre sua teoria da conspiração e como passou a ter um amor incondicional por animais um tanto quanto exóticos. Eu ria dos seus acasos e me perguntava por dentro qual era desse acaso, que nos unia e destruía, mas nunca deixava que você fosse embora de mim.

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