Sobre esforços silenciosos e descobertas



     Todo mundo faz esforços que ninguém vê. Esforços em prol de si mesmo, esforços em prol de outras pessoas... Esforços em geral. Esforços que revelam o nosso caráter, afinal, tudo de bom ou de ruim que fazemos longe do público e de uma plateia, é o que nós realmente somos.

     Ultimamente, tenho me sentido muito feliz comigo mesma por alguns desses esforços silenciosos que ando fazendo, e pelo que tenho aprendido acerca de mim mesma com eles.

     Por muito tempo, eu me vi como aquela pessoa difícil de lidar, antissocial, não sociável, não relacionável... E por aí vai. Eu até acreditava quando recebia algum elogio, mas pensava que se a pessoa que me elogiou me conhecesse mais a fundo, talvez mudasse de ideia. Eu pensava que talvez quando essa pessoa se deparasse com alguns dos meus defeitos escondidos no obscuro da alma - daqueles que todo mundo tem, mas não gosta que alguém saiba que eles existem - ela pudesse mudar de ideia e se afastar de mim. Porque por mais entranhadas que algumas coisas sejam, uma hora elas vem à tona, e tais defeitos geralmente começam a se mostrar depois de certo tempo de convivência.

     Eu não me permitia ser conhecida por completo por medo de que esse conhecimento por completo a meu respeito fosse frustrar as pessoas. E eu não queria frustrar expectativas. Eu queria corresponder àquela imagem que criavam de mim, e vivia levando a vida como se aquilo fosse a minha realidade. Mas, era só um escudo que me protegia de mim mesma. E diante dessa situação, me vi em um princípio de complexo de inferioridade misturado com um medo de me apresentar e mostrar toda a minha alma a alguém, como quem espalha cartas em uma mesa e diz "aí está".

     Depois de muito me martirizar, me diminuir e me colocar abaixo de quase tudo e todos, eu entendi que deveria começar a analisar as coisas boas que existiam em mim, se quisesse sair dessa avalanche. Foi aí que comecei a reparar nos meus esforços silenciosos diários. Percebi o quanto fico feliz em provocar um sorriso em alguém. Percebi o quanto fico feliz em ajudar alguém, nem que seja carregando uma bolsa mais pesada ou juntando papéis que caíram no chão. Percebi que eu sou uma pessoa extremamente preocupada com o bem-estar dos outros. Percebi que eu fico mais feliz ao presentear alguém, do que a própria pessoa ao receber o presente. Percebi que eu nasci para mostrar aos outros que a vida não é só nascer, crescer, estudar, se formar, conseguir um emprego, casar, ter filhos, netos e morrer. Percebi que tenho sensibilidade suficiente para extrair coisas belas, até do mais sombrio ambiente. Percebi que gosto de estimular e incentivar pessoas a verem a vida com um toque a mais de afeto. Percebi que amo ouvir de uma pessoa que após ela ter conversado comigo, a perspectiva que ela tinha sobre alguma situação mudou para melhor... E tantas outras coisas maravilhosas que encontrei no âmago do meu ser.

     E foi aí que eu vi que sou uma pessoa boa. E que independente dos meus defeitos, que em sua maioria, são iguais aos de muita gente, eu também possuo qualidades peculiares que me tornam não somente boa, mas única.

     Eu comecei a entender um pouco mais sobre valor. Sobre o meu valor, mais especificamente. E muita coisa mudou a partir daí. Não era mais qualquer crítica que me colocava para baixo, nem qualquer elogio que inflava o meu ego, pois eu me conhecia suficientemente bem para identificar quem (ou o que) eu era e deixava de ser. Não era qualquer amizade ou amor meia-boca que me satisfaziam, pois eu me conheci suficientemente bem para saber discernir quem ao meu redor também atingiu essa segurança e estabilidade a respeito de si mesmo.

     Quando uma pessoa reconhece o seu valor, muitas vezes é tachada de arrogante ou soberba. No entanto, a verdade é que ela apenas entendeu quem de fato ela é. Ela entendeu que o que ela faz de bom, pode pesar mais que alguns dos seus defeitos. Ela descobriu o quão boa ela é, não por não ter defeitos, mas porque os defeitos que ela e todo mundo tem, não se comparam às qualidades singulares que ela possui e que são difíceis de se encontrar em alguém. Não é sobre ser narcisista ou algo do tipo. É sobre tão somente permitir-se apaixonar-se por si mesmo. E não esperar menos dos outros, do que um amor que esteja no mesmo nível da estima que se sente em relação a si.

     Que possamos observar mais as coisas boas que fazemos quando ninguém está nos olhando, e assim percebamos quão especiais nós somos. Que permitamos nos descobrir e nos apaixonarmos por nós mesmos. Porque somos dignos, porque somos incríveis e não merecemos nada menor que isto: uma amizade incrível, um amor incrível, uma cumplicidade incrível, uma devoção incrível e uma vida incrível.

                                         Porque você é incrível. Acredite. Des-cubra-se e verás.

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