Espelho meu


Se você nunca viu uma criança se assustar quando se vê em um espelho pela primeira vez, deveria. É engraçado pensar como ela se assusta com a própria imagem. Rimos porque hoje sabemos o que é aquela imagem virtual que vemos (ou ao menos achamos saber o que é). Não tememos mais pois já não é algo diferente, e o diferente é que nos assusta.
Anos mais tarde, o espelho se torna nosso companheiro: seja pra acertar um detalhe do terno ou na gravata, fazer ou retocar a maquiagem, se admirar (sem narcisismo, apenas aceitando a própria beleza) ou olhando extremamente insatisfeito para aquilo que você preferia não ser você.
Mas estamos vendo apenas o nosso exterior. Já achou alguma vez um espelho pro seu interior?

Existem formas e mais formas de olhar para dentro de si, mas você estará olhando pela sua perspectiva. O bizarro é achar outra pessoa que reflete muitas coisas de você, que tenha várias coisas em comum: ver alguém como o espelho que te reflete.
É achar alguém que, frequentemente, diz exatamente o que você diria em seguida ou você diz o que essa pessoa diria. Olhar para a outra pessoa e não se sentir sozinho mesmo nos assuntos que você se achava um estranho por pensar diferente da maioria, achar quem compartilhe a mesma opinião que você sobre assuntos rotineiros e polêmicos, assuntos profundos (e não estou falando de buscar viver em uma bolha social). É engajar em assuntos profundos e conversar por horas porque o assunto flui naturalmente e muda várias vezes, sempre sincronizado com o outro.
É virar a madrugada acordado conversando e, mesmo que precisando dormir, querer ficar acordado pois da mesma forma que conversar com alguém que parece uma cópia sua é encantador e gostoso, é assustador. Sim, é estranho ver uma pessoa sintonizada com você, criando uma conversa que dispensa explicações pois as ideias de ambos os lados se encaixam como peças de quebra-cabeças. É estranho conhecer a pessoa a pouco tempo mas sentir a confiança de uma amizade de longa data.
Ver um reflexo das suas dores, mas também das suas alegrias, e assim, achar quem te entenda e saiba exatamente como te acalmar e ajudar. Uma pessoa que te deixa a vontade, com quem você não precise "pisar em ovos".

É ver tudo isso e de alguma forma gostar um pouco mais de você, pois lembra (ou te faz conhecer) as partes boas de você, ainda mais em um mundo que incansavelmente aponta apenas nossos defeitos.
E não digo estas coisas por estar apaixonado. Não, este texto não sobre paixão. Este sentimento não tem vez neste texto. É apenas uma daquelas surpresas necessárias que a vida coloca perante nós, uma ajuda pra trilhar a estrada da vida, independente de termos um amor que nos acompanhe ou não. É sobre ter aquela pessoa com quem compartilhar tudo e saber que ela te ajudará, e quando precisar te repreender ou dar bronca, fará isso da melhor e mais proveitosa forma.

Mas assim como para a criança, ainda é assustador olhar no espelho e me ver. Não um rosto, não uma imagem, mas ideias e pensamentos. Isto é belo, é assustador e interessante. Desafia nosso entendimento mas nos mostra que nem sempre é sobre entender, mas sobre apenas aproveitar sem questionar.
E aí, já achou seu espelho?


Stephen S. Madeira

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