Sou o Starman?

 
Se você acompanha o noticiário, deve ter ouvido falar sobre a Falcon Heavy, foguete lançado pela SpaceX. Mas boa parte da notícia não se voltou ao tamanho monstruoso do foguete nem pela sua tecnologia capaz de trazer suas partes de volta para o chão pousando por conta própria: um boneco em um carro - a carga da missão - foi o centro das atenções. Deixando a empolgação do momento por tudo que essa missão significa, olhei para aquele manequim no carro e pensei: "eu não sou ele?"

Sim, me identifiquei com um manequim. Sozinho, rumo ao desconhecido, traçando um caminho fruto de erro alheio, indo sem escolhas para uma chuva de destruição. Não é culpa dele, mas sua missão já falhou e agora ele vai pagar o preço pelo erro dos outros. Seu único consolo? Uma mensagem em uma tela dizendo "não entre em pânico". Sério que alguém acha que isso ajuda?
Você está preso em um destino inevitável. Alguém te usa por curiosidade, ego, carência, te manda pra longe, pra ser triturado pelos impiedosos pedaços de pedra voando por aí e ficam assistindo empolgados para ver o que vai te acontecer. E simplesmente te dizem "não entre em pânico". Isto é no mínimo sadista.

Quem de nós nunca se sentiu o próprio Starman? Um boneco, usado e incapaz de reagir, sem vida, condenado a ir para onde não quer, sofrer o que não quer. Quem nunca se sentiu usado? Traído? Impotente diante das atitudes alheias? Quem nunca se sentiu perdido no espaço?

Mas ele é apenas um manequim trajando um caríssimo traje espacial. Um rosto escondido por trás de um traje caro. Ninguém sabe como é a sua feição; se está sorrindo, triste ou com cara de assustado. Quantos de nós já não estivemos escondidos por trás de algo? Uma roupa, um sorriso falso no rosto mascarando tudo que estamos passando?
Embora ele seja apenas um manequim, quem de nós nunca foi?
Quem de nós nunca se sentiu o próprio Starman?



Stephen S. M.

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