PESSOAS NÃO SÃO PROPRIEDADES e eu preciso entender isso

  



   Eu sempre convivi com o mal de achar que as pessoas eram minhas. Sim, minhas. Como bens materiais adquiridos. Essa visão egoísta já me fez sofrer muito com crises de ciúmes. E não estou falando exclusivamente de amores, falo de amizades também. 

   Eu achava que aquela pessoa que eu elegia como melhor amiga, só deveria manter vínculos afetivos comigo. Se eu a visse mais próxima de alguém, trocando o mesmo tipo de carinho que ela trocava comigo, eu me sentia ferida, ameaçada. Tudo isso porque eu achava que aquela pessoa era minha propriedade. 

   Propriedades geralmente são compradas, arrematadas, documentadas e associadas a um só proprietário, que poderá permitir, ou não, que outros nomes também assumam o poderio daquele patrimônio. 

   Isso tudo soa como algo tão regulamentado... como uma realidade voltada só para bens materiais, não é mesmo? No entanto, a verdade é que estamos tentando fazer exatamente isso com as pessoas que amamos. 

   Primeiro cativamos, firmamos laços, desses laços nasce uma amizade, e logo definimos a posição que aquela pessoa terá em nossa vida. Essa posição ditará o quão "nossa" vamos achar que ela será. Se a posição definida for de melhor amiga, talvez possamos querer que ela seja só nossa e de mais ninguém. Vamos nos ver com o poder de definir quem vai dividi-la conosco ou não. 


Mas como uma pessoa vai viver com apenas um amigo, sem se relacionar com outros? Pois é. É aí que o "proprietário" dessa imaginária "propriedade" chora e sofre.

   Para mim, que confundia – e talvez ainda confunda – pessoas com propriedades, era muito difícil lidar com tal situação. Porque esse sentimento de ameaça se transforma facilmente em um sentimento de traição. Ainda que claramente eu não estivesse sendo traída. 

   Até que um dia eu percebi que pessoas não são como bens materiais que eu ia na loja, comprava e pertencia só a mim. E que também eu não deveria me preocupar com o quão pertencida eu era, e nem com o quão "de alguém" eu estava sendo. Afinal, uma coisa puxa a outra, e em dado momento eu também já estava vivendo para me reafirmar e fazer alguém ter a certeza que eu era uma propriedade particular dele ou dela.

   Acredito que quando Deus nos pediu para amarmos uns aos outros em verdade, assim como Ele nos amou, Ele falava de um amor tão profundo a ponto de trazer a liberdade à tona. A liberdade de saber que mesmo que aquela pessoa não esteja ao meu lado o tempo todo, mesmo que aquela pessoa não tenha só a mim como amiga, mesmo que os afazeres diários tomem nosso tempo, eu, AINDA ASSIM, posso me sentir parte pertencida e pertencedora. Não como uma propriedade que eu adquiri, e nem como sendo eu uma propriedade que foi adquirida, mas como alguém a quem eu cativei. Alguém que tem meu coração de tal forma, que pode voar, alcançar novos ares, mas que sempre terá o meu coração como lar para onde voltar após uma longa e exaustiva viagem. E que volta sempre porque quer voltar, porque se sente bem no lar que cativou, porque se sente parte de um todo que só se torna completo com a presença do outro. Que volta porque ama, não porque tem um contrato assinado. 

   E é desta forma que tento ver minhas amizades hoje em dia: como pássaros livres para voar, livres para encontrar outros pássaros, visitar outros ninhos, mas que sempre sabem o endereço do meu e têm prazer em tornar a visitá-lo.

   Nossos amigos não são só nossos. Ele não é só seu. Ela não é só sua. E você também não é só deles. Ainda que doa, assim como me dói, essa é a mais pura realidade. 


Porque pessoas não são propriedades. Ainda que queiramos muito que sejam. 

   É, eu sei que dói. E eu já vou parar por aqui, pois o coração começou a cortar. Já que na verdade, a gente queria mesmo era poder ser e que elas também fossem.


- Brígida Gabriela

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